A Plataforma Portuguesa de Artes Performativas é um evento bienal onde as obras mais relevantes das artes performativas portuguesas são apresentadas a uma centena de programadores, curadores e diretores artísticos, nacionais e internacionais. Tem sido a mais importante plataforma para a internacionalização das artes performativas portuguesas.
“My Profane Holy Body” é uma performance das fundadoras da TransParadise, Keyla Brasil e Freda Paranhos, que investiga insurgências corporais e de gênero através da mímese de suas próprias vidas. A identidade travesti é uma identidade sul-americana, ainda negada pela colonialidade de gênero, que opera a desumanização de indivíduos que não se enquadram em binarismos hierárquicos. Como confirma Letícia Nascimento (2021), as travestis são outsiders do gênero, muitas vezes tendo um lugar negado dentro do feminismo, precisando assim negociar relações socioculturais para além das dinâmicas de poder cis-hetero-patriarcais.
O devir sempre foi e continua a ser um território contestado. O devir como campo múltiplo, existindo numa fronteira entre possibilidade e desejo, como definido por Deleuze e Guattari (2012), é sobre trans-formação. Em “My Profane Holy Body”, a performer Keyla Brasil elabora subjetividades ligadas ao TRANSformar, onde o devir-trans e as múltiplas feminilidades se relacionam com o prazer e a dor.
Esta performance foi criada para provocar reflexão na identidade cisgênero europeia, e foi muito mais do que uma peça destinada a ser vendida ou capturada por curadores brancos, cisgêneros e europeus para os seus países de origem. Foi um manifesto de que a arte trans e migrante é indomável, incontrolável e irrevogavelmente presente. Ao contrário de outras seleções, a performance não foi comprada, nem teve uma circulação pela Europa após a exibição. Adivinhe por quê?
Referências
Deleuze, G.; Guattari, F. Mil platôs — capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 4. São Paulo: Editora 34, 2012 (2ª edição).
Nascimento, L. Transfeminismo. Feminismos Plurais. Sueli Carneiro; Jandaíra. São Paulo, 2021.