GUERRILHA – TRANSUBSTANCIAÇÃO: LANÇANDO FEITIÇOS ANTICOLONIAIS

O QUE A MÍDIA DISSE

A invasão do Teatro São Luiz pela atriz e ativista trans, uma das fundadoras da TransParadise, Keyla Brasil, ocorreu durante a apresentação da peça “Tudo Sobre a Minha Mãe”. Keyla protestou contra a falta de representatividade de atores trans, contestando especificamente a escolha de um ator cisgênero, André Patrício, para interpretar uma personagem transgênero na peça. Durante o protesto, ela expressou sua indignação e destacou a dificuldade que pessoas trans enfrentam para encontrar oportunidades nas artes em Portugal, relacionando-a à sua própria experiência como trabalhadora sexual.

A ação de Keyla no palco foi recebida com aplausos do público e abriu um diálogo com outros artistas presentes.

A atriz Maria João Luís e a artista Gaya de Medeiros reconheceram o significado do gesto de Keyla na luta trans. Após o ocorrido, o Teatro do Vão, responsável pela encenação da peça, expressou solidariedade à luta de Keyla e anunciou a substituição de André Patrício pela atriz trans Maria João Vaz.

Este acontecimento marcou um momento significativo na discussão sobre representatividade e inclusão de pessoas trans nas artes em Portugal, chamando atenção para a necessidade de espaços mais inclusivos e representativos.

REPERCUSSÕES POLÍTICAS

Houve uma votação para decidir se o governo apoiava ou condenava o ato. A aprovação de um voto de solidariedade aos profissionais de teatro, rejeitando ao mesmo tempo as acusações de transfobia na peça “Tudo Sobre a Minha Mãe”, indica uma tentativa de equilibrar a liberdade de expressão artística com as preocupações sociais emergentes. Este voto, proposto pelo vereador da Cultura, Diogo Moura, reflete um ponto de virada crucial no diálogo entre arte e política. O voto de solidariedade aprovado, ao reconhecer o direito ao protesto, também sublinha uma tentativa de equilibrar a expressão artística com as sensibilidades sociais emergentes. A resposta do governo evidencia o impacto e a importância de atos de protesto como o de Keyla, capazes de transcender o palco e provocar discussões políticas substanciais.

A divergência de opiniões entre os vereadores, com alguns expressando solidariedade à luta trans e outros defendendo a liberdade de expressão artística, ilustra a complexidade da questão. A decisão de levar o protesto da TransParadise a votação revela a necessidade de um debate mais profundo sobre inclusão e representatividade, não apenas nas artes, mas também na formulação de políticas e práticas culturais.

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NOSSAS REFLEXÕES

Em 19 de janeiro, marcamos o aniversário de um ato que redefiniu os contornos do palco contemporâneo em Portugal. A TransParadise desafiou estruturas coloniais. O ato de “descobrimento” do palco, longe de ser uma invasão, foi uma reivindicação de espaço, um manifesto vivo. Ao escolher um momento de alta visibilidade artística, não apenas trouxemos à luz a marginalização dos corpos trans nas artes, mas também questionamos quem tem o direito de reivindicar espaços de expressão (Mignolo, 2007).

Numa indústria que frequentemente se esconde atrás da arte para perpetuar o status quo, Keyla, que descobriu o palco, nos lembrou que os palcos são terrenos de luta e afirmação de identidade. A insurgência de Keyla é uma aplicação prática das teorias decoloniais, que buscam desmantelar a continuidade do colonialismo na modernidade (Quijano, 2000). Sua ação desafia a narrativa de que a arte é neutra e nos lembra que todo palco carrega em si a história de exclusões e silenciamentos.

Keyla Brasil, por meio de sua ação, abraça o movimento contracolonial, que não apenas responde à colonização, mas também atua como forma de resistência cultural e recuperação de agência (Césaire, 1955). Seu protesto é uma declaração de que a arte trans e migrante é indomável, incontrolável e irrevogavelmente presente.

“Hija de Perra” (2014) questiona: Existimos apenas desde que nos descobriram? “Parece que a nossa voz só é valorizada quando o dominante nos encontra, nos faz existir. Como se a história anterior à colonização não existisse, e tudo começasse a partir do descobrimento da América para esses indivíduos que nem sabiam onde estavam e que nós já éramos livres de suas misérias imundas havia muitos anos.” (p.2)

Outra interpretação da palavra “descobrimento” neste contexto traz a ideia de revelar e desvelar verdades ocultas. Semioticamente, “descobrir” pode ser entendido como um processo de remover o véu ou expor algo (e a si mesma) que estava encoberto, trazendo à luz aspectos antes ignorados ou deliberadamente escondidos.

Neste contexto, o “descobrimento” transcende a mera ação física; torna-se um ato simbólico de resistência e empoderamento. Keyla, ao “descobrir” o palco, despe o teatro de suas convenções tradicionais e propõe uma nova forma de compreender e experienciar a arte. Ela desafia o público a ver além das superfícies, a reconhecer as camadas de significado e a história oculta sob as normas culturais e sociais estabelecidas.

Um ano após o protesto da TransParadise, sua reverberação ainda desafia as normas coloniais profundamente enraizadas nas artes. A necessidade de descolonizar o palco – e nossas próprias percepções – permanece urgente. Ao celebrarmos este aniversário, devemos também reafirmar nosso compromisso com a luta pela equidade e pela verdadeira inclusão.

O trabalho está longe de terminar, e devemos continuar a elevar vozes marginalizadas e criar espaços para comunidades sub-representadas. É importante reconhecer como as artes historicamente excluíram certos grupos e trabalhar ativamente para desmantelar esses sistemas opressivos. Descolonizar o palco significa mais do que apenas diversificar escolhas de elenco ou práticas de contratação. Exige uma mudança fundamental na forma como abordamos a narrativa e os tipos de histórias consideradas valiosas. Devemos desafiar as narrativas dominantes que foram perpetuadas por séculos e abrir espaço para novas e diversas perspectivas.

Referências: Césaire, A. (1955). Discourse on Colonialism. Monthly Review Press. · Mignolo, W. (2007). The Decolonial Option: Towards a Non-Colonial Living. In Local Histories/Global Designs: Coloniality, Subaltern Knowledges, and Border Thinking (pp. 1-22). Princeton University Press. · Perra, H. d. (2014). Interpretaciones inmundas de cómo la teoría queer coloniza nuestro contexto sudaca (p. 2). Revista Periódicus, 2ª edição. · Quijano, A. (2000). Coloniality of Power, Eurocentrism, and Latin America. Nepantla: Views from South, 1(3), 533-580.